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sábado, 30 de janeiro de 2010

“TV 42 polegadas de alta definição”

Vou comprar uma “TV 42 polegadas de alta definição”...

Suas imagens bem definidas esconderão a indefinição do mundo e de minha mente. As figuras perfeitas na tela ocultarão nossa imperfeição.

Ficarei feliz, entretido com estórias artificiais sobre sentimentos artificiais em mundos artificiais.

Me emocionarei com narrativas plastificadas e enlatadas... Escapismo de minha realidade.

Experimentarei adrenalina por situações que nunca vivi. Gargalharei do absurdo. Sentirei ódio de quem nunca vi. Desejarei morte a quem não conheço. Amarei quem não me conhece: Emoções fabricadas.

Sua tela de 1 metro de diagonal será minha janela para o Mundo. Gritarei para seu vidro: Me Informe! Me emocione! Me assuste! Me apaixone! Me entretenha!... E minha “TV 42 polegadas de alta definição” assim o fará... Obediência total.

Ela já vem com conversor digital integrado. Pronto a converter o “nada” em “coisa nenhuma de alta definição”. Integrado a sua própria insignificância.

As suas 4 entradas HDMI escondem a verdadeira verdade. Da minha “TV 42 polegadas de alta definição” não há entradas, somente saídas.

A sua taxa de contraste de 80.000:1 não mostrará os reais contrastes da terra. Não me mostrará os contrastes dos povos, das riquezas, das raças, das cores ou dos pensamentos.

O seu brilho de 500 cd/m² não há de colocar luz onde há escuridão. Há de cobrir sim as brumas da inteligência. Há de desafiar sim a lógica de meu raciocínio.

A resolução de 1080 pixels da tela, nada poderá resolver. Maquiará o insolúvel... Simplificará o analógico em informações digitais.

Beijo, paisagem, música, poesia, sexo... Tudo se transformará em um código binário sem nexo em carrossel: “10100100100101001”.

E ainda assim... Ela há de suavizar... A suas imagens com freqüências de 120hz hão de transformar as ríspidas e brutais ações humanas em atos suaves. Preenchendo as lacunas de obras bestiais com movimentos leves e delicados.

E assim vou consumi-la. Vou devorá-la lentamente. E em troca ela também me devorará... Consumirá meu tempo... Consumirá meus olhos... Consumirá minha inteligência... Consumirá meus pensamentos: Um produto de consumo.


(JANEIRO DE 2010)

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